Dois cappuccinos, por favor!




Ela entrou. Passou por todos como se estivesse sozinha. Viu uma mesa vazia - quase que esquecida - com duas cadeiras e foi se sentar. Aquela cafeteria era a sua preferida, ainda mais no outono às quatro da tarde. Talvez pela calmaria que lhe transmitia ou devido ao nome em francês, que a deixava com um imenso sentimento nostálgico. Colocou a bolsa sobre a mesa e sem tocar no cardápio chamou o garçom. Pediu o cappuccino de sempre e tirou da bolsa um livro. 


Ele entrou em seguida. Na tentativa de achar uma mesa vaga, acabou por avistá-la. Doce, meiga e calma, era como seu coração a decifrava. Fixou o olhar no encanto de menina enquanto ela não tirava os olhos do livro. Parado perto da porta foi interrompido por uma ou duas pessoas que tentavam entrar. Não havia lugar desocupado, o que lhe encorajou de pedir para sentar-se junto dela. Caminhou, parou em frente a mesa e a observou por alguns segundos. Pensou em ir embora - pois ao menos foi notado - mas não conseguiu. Tentou interromper:
- Olá?
Ela continuou centrada, como se não houvesse ninguém por perto. Insistiu:
- Memorial de Aires, de Machado de Assis. Esse livro é super interessante.
Ela quase se assustou. Envergonhada, direcionou os olhos até os dele:
- Realmente, um dos livros mais poéticos e amenos que já li. Desculpe minha dispersão, eu juro que não te vi aí.
- Posso me sentar? - ele sorriu.
- Sim. Eu não vou demorar muito. Só estou esperando meu cappuccino.
- Acho que irei te acompanhar. - ele disse e acenou para o garçom.
- Você não me parece gostar de bebidas quentes.
- Em partes é verdade. Quente mesmo, só amores.
A menina sorriu e voltou a ler.
Enquanto esperavam não diziam uma palavra se quer. Os olhares acabavam por se encontrar algumas vezes, o que tornava o clima ainda mais intenso. Os cappuccinos foram servidos e ele retomou a conversa:
- Você parece gostar da cafeteria.
- Sim, venho aqui quase todos os dias. Você já conhecia?
- Passo em frente sempre, mas é a primeira vez que entro.
- Tenha certeza que vai querer voltar outras vezes. O cappuccino daqui é o meu preferido. - ela disse e em seguida tomou um pouco.
- Algo me diz que você está certa. - ele fez o mesmo.
Começaram um diálogo que parecia não ter fim. Às vezes ele conseguia arrancar um sorriso - sincero - dos lábios dela. Falaram sobre livros, autores, músicas, filmes e até sentimentos. Deixaram um ou outro segredo escapar. Algo os dizia que aquela não seria a última vez, pareciam se conhecer a tempos. As palavras dela eram suaves, e transmitiam a ele paz. As dele eram sábias, e acabavam por confortá-la. Perderam-se um no outro. A hora passou depressa, e enquanto ele falava sobre tudo - ou nada - ela olhou seu relógio e o interrompeu:
- Eu preciso ir! Me desculpa sair assim, mas já está ficando tarde e ainda tenho algumas coisas a fazer. - ela pegou a bolsa e saiu antes de ouvir qualquer palavra.
Enquanto caminhava até a porta, os olhos dele seguiam seus passos. Sentiu seu coração palpitar só de pensar em não vê-la mais. Esperou alguns minutos, e também se foi. No caminho, os dois não paravam de pensar no ocorrido. Ela sentia uma enorme vontade de reencontrá-lo, e o desejo dele era não ter a deixado ir. Não sabiam seus nomes e nem trocaram telefone, mas sentiam que o encontro não havia sido à toa. Talvez esse fosse o começo de uma grande história. Quem sabe? Apenas uma coisa era certa: no outro dia ele estaria lá. Às quatro da tarde no mesmo lugar, com dois cappuccinos sobre a mesa, a espera de um futuro - grande - amor, assim como nos livros.